quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Contos de Natal: O Estalajadeiro de Deus

                Titus estava triste! Durante o dia todo não soubera o que fazer e parecia que no meio dos adultos estava sempre atrapalhando. E ele só queria ajudar! Mas eles sempre o mandavam embora.
                - Vá brincar! – diziam e Titus não queria brincar.
                O pequeno Titus era u menino de seis anos que morava com seu tio, o grande Titus, na cidade de Belém, onde este tinha um albergue chamado “Ao Bom Descanso”.
                O pequeno Titus admirava o grande Titus como ninguém. Mais tarde, quando fosse grande, ele também seria um estalajadeiro e daria hospedagem às pessoas que viessem de longe para que se sentissem tão bem como no albergue “Ao Bom Descanso”.
                O grande Titus sabia conversar com todos. Sempre encontrava uma solução para todos os problemas e os hóspedes ficavam satisfeitos com ele e seus alojamentos. Nunca o grande Titus ficava bravo. Se alguém pedisse algo especial, esforçava-se ao máximo para atender os seus pedidos. Bem cedo, antes que qualquer outro acordasse, o estalajadeiro já estava de pé, punha água no fogo, alimentava os animais e preparava o café da manhã. E a noite, quando as luzes já estavam apagadas e a casa silenciosa, ele trancava as portas do albergue e era o último a ir para a cama.
                O pequeno Titus já havia ouvido muito sobre seu tio, falavam bem dele, todos o elogiavam. Assim, o pequeno Titus queria ser um dia como o Grande Titus. Por isso ele ajudava onde podia : na casa, no pátio, na cozinha, levava recados. Havia muitas coisas que um menino podia fazer lá!
                Só que em certos dias parecia impossível ajudar. Como agora que havia tanto a fazer! Pois nunca Belém recebera tantos hóspedes para alojar. De todas as regiões de Israel chegavam pessoas para  o recenseamento. E aqueles que chegavam, necessitavam de alojamento e alimentação pelo menos por alguns dias. Mas sempre  que havia muito o que fazer, e o pequeno Titus queria ajudar, diziam que estava atrapalhando, que era somente uma pequena criança. E ninguém tinha tempo para ele.
                - Vá brincar! – dizia-lhe Titus Grande, encontrando-o a descer as escadas, levando nos braços montes de lençóis brancos lavados.
                - Vá brincar! – pedia Tia Ruth entre grandes nuvens de vapor da comida que estava preparando para inúmeros hóspedes.
                - Vá brincar! – dizia até mesmo o velho Daniel, que cuidava de sete cavalos no pátio.
                Mas Titus não queria brincar, ele queria ser estalajadeiro, ele também queria preparar os quartos, queria ser útil!
                Quando o menino percebeu que os adultos naquele dia não queriam saber dele, correu para esconder-se, chateado, no estábulo. Remus, o boi, não iria expusá-lo. Outras vezes Titus já o havia procurado para queixar-se, quando estava triste. Só que dessa vez seu coração parecia estar mais pesado do que nunca. E Titus chorava.
                Mas no estábulo, esqueceu seu sofrimento rapidamente, pois o que ali viu era tão surpreendente que ele simplesmente, esqueceu a tristeza.
                Como vocês sabem, um estábulo não é muito especial, menos ainda se for um simples portão de tábuas na frente de uma caverna na rocha, na qual cabem um boi, sua manjedoura e alguns feixes de palha e capim.
                Mas imaginem se de repente, surgem aí dentro três figuras com brilhantes vestes, com grandes asas de luz, movendo-se silenciosamente... em poucas palavras, se de repente surgem nesse estábulo três Anjos Divinos, quem não esqueceria todas as suas tristezas ao vê-los?
                O pequeno Titus fechou rapidamente o portão como se temesse que os Anjos luzidios desaparecessem com a claridade do dia. E ali ficou olhando e olhando, sem se cansar de olhar.
                Será que os Anjos o perceberam? Mas eles não interromperam sua dança celestial. Flutuavam em volta da miserável manjedoura, acariciavam a madeira áspera com suas mãos finas e parecia que tentavam alisar a palha com movimentos suaves. Cantavam sem parar e Titus, que ali de pé, a tudo via e ouvia, compreendeu logo porque aquelas aparições celestiais haviam vindo ao estábulo e o que elas preparavam!
                Oh! Os anjos cantavam que o Filho de Deus nasceria na Terra, naquele dia e isso aconteceria ali, no estábulo, naquela manjedoura. Estava próxima a hora em que esse milagre aconteceria. Os Anjos cantavam no estábulo enquanto suas mãos de luz tentavam preparar o lugar para o nascimento, alisando a madeira, amaciando a palha. Mas a madeira era dura e a palha seca demais, para que mãos de Anjo pudessem transformá-las.
                Incansavelmente trabalhavam os Anjos para preparar o abrigo para seu Senhor, mas o material duro e áspero resistia a seus esforços.
                Então, o pequeno Titus deu um passo a frente. Tomou coragem e com o coração batendo forte, disse:
                - Meus senhores! Deixem que eu faça esse trabalho! Vou preparar ao Menino Deus um lugar em que possa ter um bom descanso. Eu conheço esse trabalho, pois o grande Titus, o melhor estalajadeiro da região, é meu tio.
                Os três anjos então olharam para Titus com olhos que pareciam estrelas. E disseram:
                - Nós lhe agradecemos, Titus, você  será a estalajadeiro que receberá o Nosso Senhor!
                O pequeno Titus não hesitou nem mais um minuto. Correu para o pátio, onde Daniel ainda estava ocupado com os cavalos, pegou a vassoura e correu de volta ao estábulo sem responder às perguntas.
                Varreu a palha velha e Remus, o velho boi que normalmente nem gostava de se mexer, deixou-se facilmente convencer a ceder o lugar. Depois de juntar a palha, Titus levou-a a um canto do pátio onde juntavam o lixo e mesmo tendo muita pressa ele prestou atenção para não perder nenhuma haste sequer pelo caminho. O chão do estábulo estava esburacado, mas depois que Titus abriu um feixe de palha e espalhou-o, não se via mais os buracos. Encheu a manjedoura com capim fresco.
                - Por favor – dizia ele a Remus – não coma tudo! Isso deverá ser a cama para o Filho de Deus e se você comer o capim, Ele terá que deitar-se em tábuas duras. Nós queremos ser o albergue “Ao Bom Descanso”, não é?
                Mas a advertência era desnecessária, pois Remus havia visto os vultos luminosos e compreendera a seu modo, que algo especial estava para acontecer.
                O pequeno Titus estava molhado de suor, quando o estábulo ficou arrumadinho: a palha e o capim num canto, a manjedoura pertinho da janela, para que a luz do dia pudesse iluminá-la, e um banquinho velho ao lado, para os pais da Criança.
                Remus respirava profundamente para aquecer o estábulo. Assim estavam os dois ocupados, cada um a seu modo, quando ouviram vozes no pátio. Ouviram como o Grande Titus estava meio zangado, diferente do seu modo de ser. Dizia:
                - Mas eu vos digo, bom homem, que todos os quartos estão cheios! Até na sala e nas despensas há pessoas dormindo. Não tenho lugar para vós!
                Depois, Titus e Remus ouviram uma mulher soluçando baixinho. Esse choro lembrou a Titus o canto dos Três anjos.
                - Eles chegaram!- disse a Remus e correu até o pátio onde estava o tio e explicou:
                - Tio Titus, há ainda um lugar. Eu já o preparei para que a Criança possa dormir bem.
                Titus olhou para seu sobrinho e depois para aquelas pobres pessoas, uma jovem mulher envolta num manto azul de capuz e um homem velho que levava um burrinho puxado por uma corda. Coçou sua cabeça e murmurou:
                - Está bem, venham, talvez eu possa ajudar.
                E como ficou surpreso ao entrar no estábulo tão limpo e arrumado!
                -Mas quem fez isso? – perguntou.
                - Eu – disse o pequeno Titus, orgulhosamente – pois somos o albergue “Ao Bom Descanso” e não podemos deixar as pessoas na rua!
                O Grande Titus achou muito estranho. Como é que o menino soubera da vinda daquele pobre casal? Mas deixando as perguntas de lado, os fez entrar, arrumou a palha na manjedoura como costumava ajeitar os cobertores nas camas e desejou uma boa noite.
                Maria e José, pois eram eles a jovem mulher e o homem velho, agradeceram ao estalajadeiro sua gentileza e aliviados sentaram-se no pequeno banco ao lado da manjedoura. O pequeno Titus hesitou ao sair do estábulo, pois agora estava tudo preparado, não precisavam mais dele, mesmo assim era difícil sair dali. Ao fechar a porta devagarinho, ouviu a jovem mulher chamá-lo.
                -Menino – disse Maria – queremos agradecer-te também em nome do nosso filho, que nascerá esta noite. Não sei o teu nome, mas para nós serás sempre o estalajadeiro de Deus, pois foste tu que deste abrigo à Criança Divina.- E José inclinou a cabeça confirmando as palavras de Maria.
                À noite o pequeno Titus não conseguiu adormecer, sempre pensava no Anjos no estábulo aos quais ajudara e em Maria que o chamara de “estalajadeiro de Deus”. Ele sempre quisera ser um estalajadeiro e agora era um. No seu albergue “Ao Bom Descanso”, a Criança iria nascer, a Criança Divina. Na manjedoura que ele arrumara, a Criança teria uma cama macia e quentinha para dormir e amanhã cedo ele iria para vê-la...

                Finalmente Titus adormeceu. E isso porque em volta de sua cama, os três Anjos de Luz cantavam lindamente. Mas o que Titus sonhou nesta Noite Santa, nem é preciso lhes contar, porque foi o sonho que todas as pessoas sonham desde aquele dia, quando dormem na noite de Natal.
 Georg Dreissig

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